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Editorial | Quando a violência vira 'de esquerda'


Nos dias 24 e 25 de outubro, ocorreu em todo o Brasil a prova do Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM. E, no domingo, dia da prova de Linguagens, Matemática e Redação, a polêmica aconteceu. O tema, o qual é sempre tão esperado todo ano, esse ano foi A persistência da violência contra a mulher no Brasil. A coletânea de textos para auxiliar os candidatos continha vários dados estatísticos sobre os vários tipos de agressão contra o povo feminino.

Mas, porém, entretanto, todavia, contudo, os deputados Jair Bolsonaro e Marco Feliciano não curtiram a ideia. Eles alegaram que a prova deveria ser refeita já que o tema era "de esquerda". Para quem não entende muito de política, deixe-me esclarecer os termos: essa divisão começou na Revolução Francesa, em 1889, quando o rei Luis XVI reunia todas as camadas da população para a Assembleia. Os girondinos, representados pela burguesia, se sentavam à direita do rei. Os jacobinos, os quais eram a camada mais pobre do país, à esquerda. Desde então, convencionou-se chamar de "direita" os partidos  pró-capitalismo e, mais recentemente, neoliberais e de "esquerda" os políticos com maior sensibilidade social, sendo o extremo do primeiro o fascismo e o extremo do segundo o comunismo.

Os deputados, os quais são conhecidos pelas declarações preconceituosas e conservadoras, ao alegarem que a violência contra a mulher é um tema "de esquerda", minimizam a gravidade do problema enfrentado pela população feminina no Brasil e no mundo. A sociedade tem sido machista desde o início dos tempos. Na Grécia Antiga, a mulher era considerada inferior intelectualmente, sendo o amor verdadeiro, portanto, só possível entre homens. Na Europa, nas Idades Média e Moderna, a mulher não era autorizada a sair de casa sem o pai ou o marido. E, hoje, temos os movimentos afirmando que o estupro é culpa da vítima.

Quando a violência vira uma coisa "marxista", como afirmou Bolsonaro em sua página do Facebook, há algo de muito errado na sociedade. Uma pessoa afirmar que é questão de ponto de vista político o sofrimento de milhares de mulheres torturadas e até mortas equivale ao pedido de volta da Ditadura Civil-Militar, como ocorre em diversas manifestações Brasil afora.

Para quem também não está muito por dentro desse assunto, aqui vai: o GOLPE de 1964 (sim, golpe, pois, quando se tira do poder um presidente eleito por vias legais, é golpe), patrocinado pelos Estados Unidos, tinha como "justificativa" livrar a América do comunismo, após a Revolução Cubana, com Che Guevara. Porém, a censura, a tortura, a perda das liberdades individuais, o afastamento de diversos oficiais das forças armadas que não apoiavam o golpe, tudo isso não é defensável. 

Portanto, se um tema como violência é visto como "relativismo político", a sociedade fecha os olhos para diversas atrocidades que ocorrem e ainda ocorrem no país e no mundo, recebendo ideias enlatadas de grandes corporações. Então, dá para ver claramente que o povo brasileiro precisa de uma boa dose de senso crítico e aulas de história, filosofia e sociologia.
Editorial | Quando a violência vira 'de esquerda' Editorial | Quando a violência vira 'de esquerda' Reviewed by Carolina Soares on 3.11.15 Rating: 5

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